domingo, 6 de novembro de 2016

Conto - Meu Querido Anjo




















 Este é o meu primeiro conto, tomara que gostem! (história totalmente fictícia, lugares e nomes irreais, imagem da internet)
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     Meu Querido Anjo

 Está frio. Sinto o gosto metálico de sangue, misturado com o sal

das lágrimas. - Tum, tum, tum - Meu coração não para... seria muito melhor se parasse.
- Truuuuum – As portas se abrem com um estrondo ensurdecedor. A luz inunda meu pequeno recinto. Meu corpo grita por calor... por vida.
 Decido que é hora de sair. Acanhada, vejo os guardas se aproximando, puxando as pessoas. Gritando:
- 1/4 das mulheres, homens para as minas, 2/4 das crianças e velhos para o incinerador.
 Foi isso o que entendi? Incinerador? Que estranho...ótima forma de receber convidados!
 Perdida no devaneio, só percebo o guarda se aproximando quando sinto uma pancada na nuca.

- Cuidado com o que olha, menina. Seu lugar é com os outros.
Me senti aturdida, mesmo assim segui para o grupo que o guarda apontava.


 Quando enfim chegamos ao destino, vejo mulheres paradas às portas de um galpão esquisito, bicolor. Uma das guardas se aproxima e fala calmamente:
- Eu sou a Tenente Lice. Sejam bem vindas ao Inferno!
 Todas fomos obrigadas a nos despir ainda fora do galpão. Nuas, entramos e fomos recepcionadas com ainda mais amorosidade: Guardas com cassetetes nas mãos espancavam uma a uma, como se fosse uma versão macabra de São João. Minha pele queimava, mas antes que pudesse desfrutar da dor, sinto outra pancada na nuca.

 Quase desmaio, mas sinto uma mão me puxar para cima. Uma garota:
- Levante-se, eu sou Tereza.
 Mal tive tempo de pensar numa resposta, quando a mesma guarda de antes, Lice, ordena: - "Chuveirada".


 Não sabia que a água poderia ser tão fria. Fecho os olhos. Ouço gritos, mas não ouso olhar. Mergulho nos pensamentos: grama verde, céu azul, nuvens brancas, um mundo só meu...
- Acorda – Era a menina que me segurou antes de cair – Olha aquilo.
 Olho para onde ela apontava. Guardas se aproximavam por trás de um vidro. Olho mais atentamente, e vejo tesouras.
 O chuveiro parou como se prescindisse o que estava por vim.
- Muito bem bonecas, é isso que vai acontecer com todas vocês. – A Tenente ria, debochada.
 Ela acena, e um guarda puxa uma garota. Meu peito dói, mas não consigo deixar de olhar. Estou horrorizada. Tereza está caída, segurando seus cabelos ( ainda não havia reparado o quanto eram lindos. De um vermelho intenso). Ela me olhou, os olhos cheios de lágrimas. Ouvi falar que os ruivos eram considerados crias de Satanás, e por isso também os pegavam.
 Outros guardas apareceram, esses são diferentes (mulheres). Uma se aproxima de mim. Começo a gritar, corro para o lado, mas é uma quina, não tenho saída! Caio no chão. Mesmo assim fito os olhos da moça, que parece sentir pena de mim, compaixão. Ela gesticula para me acalmar, e move os lábios como se dissesse: Vai ser rápido. Prometo.
 Olho para o chão. Mechas estão caindo. Arrisco pegar uma. São louros, como os de minha irmã.
É um pesadelo. Só pode ser.
A moça sai, e quando retorna, me entrega roupas listradas, da mesma cor da cabana, azul e branco, como pijamas. O que isso significa?
 Somos levadas a outro galpão, beliches estão espalhadas por todos os lados, palha recobria os leitos, e no lugar das almofadas, tinham pedras e panelas. Senti fome, mas não nos deram comida naquela noite. Que ironia!
 Deitei, meu corpo estava cansado, mas não dormi. Lembrei de meus pais, minha irmãzinha, e Jack. Todos tirados de mim. Arrancados como farpas. Meu estômago dói, mas não apenas pela fome, Jack foi meu amado, meu tesouro, não podia pensar em outra coisa...
Ouço um barulho, um cochicho masculino.
- Ei, boneca, acorde!
Sinto uma mão na minha boca, entro em pânico.
- Xiiiiii. Você é muito linda, sabia?
Ele me tirou da cama e me levou para fora. Me deu um pão e disse: -Coma!
Assustada, neguei!
- O que quer?
- Bem... nada de mais. É que sou um dos guardas e faz tempo que...
- O QUE? Louco, nojento...
- Meu docinho, não vou te fazer mal. Quando vi o outro guarda te batendo, pensei que você poderia ter se machucado, então decidi vim averiguar.
- Há! Não me diga?!
Naquele momento ele baixou a cabeça, as lágrimas desceram seu rosto.
- Me perdoe, sabe... não era minha intenção ser nazista. Não aceito que nada disso aconteça!
- Nazista?
- Sim boneca, eles estão fazendo...
Naquele momento um sino começou a tocar.
- Coma. Logo!
Então ele correu, e decidi que era hora de dormir!


 Acordo assustada! Já é de manhã, o sino toca. Guardas se aproximam com cassetetes para nos dizer "Bom Dia"!
 Saímos apressadas, sem comer, e ficamos em fila do lado de fora.
Nesse momento, alguns dos guardas escolhem meninas, e as separam das outras. Vejo o homem de ontem, ele vem e pega pela mão, me separando das demais!
Logo após, começamos a caminhar para longe, e quando olho para trás, vejo as que restaram sendo espancadas. Caídas, são arrastadas para longe... acho que vi Tereza entre elas.
 Ao chegarmos a um alojamento, os guardas começam a arrancas nossas roupas, agredindo com murros e chutes. Olho para meu lado, e vejo uma menina, pouco mais de 15 anos, jogada no chão com um guarda em cima dela. Ela olha para mim e pede ajuda, mas não consigo me mover! O mesmo acontecia com outras garotas.
Quando percebo um guarda se aproximando, o homem de ontem à noite o empurra, me defendendo. O outro parece perder interesse e se vira em busca de outra.
 Sou levada a um quarto. Estou com medo. Como se lesse meus pensamentos, o homem diz:
- Não tenha medo. Não vou te machucar.


 Ele me mostra todo o seu quarto, depois me pediu para sentar, e começou a contar sobre o que ele faz! É biólogo, faz estudos sobre a anatomia humana. Decido fazer uma nota mental sobre isso.
 Depois disso, comecei a prestar um pouco de atenção nele... me parece tão familiar, como o Jack! Senti uma forte sensação de conforto, e decido que poderia dar a ele minha confiança. Ele me fez se sentir tão bem que mal me lembrava das atrocidades que aconteciam fora daquele quarto.
 Quando saímos do recinto, duas mulheres estão mortas no chão, com os corpos em posições estranhas. No canto estavam outras , chorando e se empoleirando umas nas outras. Ele me manda me juntar a elas e sai.
 Quando as guardas chegam, nos levam de volta para o galpão de ontem à noite, nos dão comida, pão embolorado e água. No outro dia tudo se repete, nós saímos, nos escolhem, e nos levam para o dormitório. Decido que é hora de perguntar seu nome.
- Pode me chamar de anjo.
Ele me contou que seria liberado na próxima semana, e que me levaria junto.
 Quando saímos, aguardo com outras meninas a chegada das guardas. Somos levadas a um campo aberto, e colocadas em fileiras de cinco. Algumas mulheres são selecionadas, e um soldado fardado vai até a tenente. Não consigo entender o que conversam, mas então ela grita:
— Todas nesta direção! Andem logo! Vão!

 Parece que o melhor a se fazer é andar.
 No meio do caminho, uma senhora cai, nesse momento dois guardas começam a bater na sua cabeça e gritar – Vamos. Vamos! Levante! - Por um segundo desvio o olhar, a minha direita vejo fumaça. Homens estão entrando em uma construção com uma longa chaminé. Ao nos aproximarmos, olho para cima e vejo que a fumaça se entende por longos quilômetros. penso comigo mesma, como seria bom ser como a fumaça, e voar para longe com os ventos.
 Entramos em uma sala, novamente nos despimos, e do nada uma guarda chamada Rise me puxa com arrogância para fora do cômodo. Rindo histericamente, diz:
- Seu anjo te salvou em!
Lá estava ele, com um sorriso de estrelas.
-Vamos?
-Vamos!
- Antes de irmos, quero te mostrar uma coisa!
 Descemos uma escadaria até uma sala fria.
- O que vamos fazer?
- Vou te mostrar meu lugar preferido para estudos.
 Seus lindos olhos me encaravam, me hipnotizando. Do nada, sinto uma dor aguda no braço e quando olho vejo uma agulha fincada em minha carne.



 Abro os olhos. Sentado em uma cadeira está meu anjo e repousando em seu colo uma adaga.
- Ora, ora, você acordou! Está na hora de me ver trabalhar.
 Atordoada, indago:
- O que está acontecendo?
 Ele começa a arrancar minhas roupas, tento me debater, mas estou presa por amarras de couro em uma cama de dentista.
- Você deve entender que todas passam por isso.
- Não. Por favor, me solte!
Sinto um calor, a adaga rasga a delicada pele de meus seios.
- Não se apavore, apenas preciso de um coração!
 Meu peito se abre. A dor é tão grande que quase desmaio. Sim, estou no inferno. E o inferno é o mundo!
 Nesse momento fecho meus olhos, será que é assim que vou morrer?
- Você era meu anjo.
Rouco, ele respondeu:
- O Anjo da Morte.



 


 Jhuly Jackson morreu no dia 11 de Setembro de 1943 aos 21 anos. Apenas seu coração foi encontrado sobre a mesa do pesquisador Joseph Milerman, no campo de concentração de Chełmno na Polônia. Seu corpo fora jogado no incinerador pelo próprio Joseph, que deu a ela seu maior sonho... Ser fumaça e voar nos ventos.
 Tereza foi encontrada quase morta dois meses depois, pesando apenas 27 kg. Hoje ela mora na Venezuela com seu marido e seus dois filhos.
 Jack soube da morte de sua amada 1 ano após seu falecimento. Logo após, ergueu um túmulo em seu jardim, e na lápide foi escrito: Jhuly Jackson, que alcançou os céus!


  Gláuber Brasileiro


 

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